domingo, 29 de dezembro de 2013

A colecção escondida de António Sena

Há meses, na inauguração da exposição das fotografias (mal) atribuídas a Sena da Silva, na Cordoria Nacional, um amigo trouxe-me uma informação surpreendente: a colecção de fotografias (e certamente também de livros e revistas) de António Sena (o autor da única história da fotografia - ou da imagem fotográfica - em Portugal, Porto Editora 1998) iria ser instalada em Cáceres. Não havia pormenores sobre o local ou a instituição que a acolheria, por doação, depósito ou venda. Ficaria certamente acessível, e melhor tratada na Estremadura espanhola que em qualquer instituição portuguesa. Era uma boa notícia.

Hoje, outro amigo tinha outra notícia, que transmitiu com idêntica convicção e falta de pormenores. Agora, a colecção (em vez de destinada a Cáceres) iria para uma ilha do Pacífico, que depois precisou que seria próxima de Timor, um ilhéu deserto. Não parecia sensível ao absurdo da história. Os meus dois amigos, diga-se, são pessoas com credibilidade, bem integradas nos meios culturais, que conviveram com A. Sena.

Somadas as informações, parece admissível que seja o próprio António Sena (o Toé que foi o animador da galeria Ether - ver saisdeprata-e-pixels.blogspot.pt/2008) a pôr a circular os boatos sobre a sorte da colecção, a qual não deve ser entendida apenas como seu património particular mas sim como um acervo único e decisivo, insubstituível, sobre a história da fotografia em Portugal: um país em que abundam negativos à mercê de quaisquer aventureiros, e falta o que é essencial, as provas de autor e de época, e também as publicações e catálogos de referência, ausentes nas bibliotecas.

duas páginas do catálogo "Olho por olho", Ether, 1992



Quando decidiu fechar a porta da Ether (por extenso: Ether/vale tudo menos tirar olhos. Centro de animação fotográfica a.e.p. - foi uma associação cultural sem fins lucrativos) , numa data incerta dos anos 90, o António Sena mudou-se para o Pico e deixou de ter qualquer acção na área institucional da fotografia*. Parte da colecção, que nunca foi identificada como tal, reconhece-se na quase totalidade das ilustrações da História que acima se refere e antes disso no pequeno catálogo de uma mostra intitulada "Olho por olho - uma História de (sic) Fotografia em Portugal 1839-1992" que assinalou os dez anos da Ether e se sucedeu à pioneira representação portuguesa na Europália'91 (ao contrário das outras mostras levadas à Belgica, a embaixada fotográfica que A.S. dirigiu não foi repetida**). O catálogo teve só 131 exemplares, sendo 50 em edição inglesa. Desde o fim da Ether muita gente se perguntava sobre o paradeiro, a segurança e as condições de conservação do acervo, mas o António Sena cortou todos os contactos com os seus antigos colaboradores e amigos - pelo menos com todos com eu pude contactar. Desapareceu, convencido de que o país não o merecia***. É uma historia trágica, e a mais absurda das inúmeras histórias absurdas que têm feito a não-história da fotografia em Portugal.

Muito mais importante que um qualquer Crivelli exportado com ou sem passaporte, que tanto tem excitado a imprensa - sensacionalista (o Público, em especial) - , é a colecção de fotografias (e livros, revistas, catálogos e documentação variada, nomeadamente portuguesa) que António Sena reuniu, dispondo de meios financeiros aparentemente ilimitados. Sabe-se como ficou interrompida e desvirtuada a Colecção Nacional de Fotografia (de facto, principalmente uma colecção internacional) que Jorge Calado adquiriu nos anos de 1989-90 por convite de Teresa Gouveia (apresentada em 1990 com catálogo realizado pela Ether - entretanto perdida no Centro Português de Fotografia, Porto, e parcialmente roubada). 

A perda do património fotográfico reunido na colecção particular de António Sena é obviamente mais grave e, enquanto curculam boatos insólitos sobre o seu destino, talvez fosse possível que uma qualquer iniciativa oficial tentasse recuperá-la para o país. Num tempo em que surge um primeiro doutoramento sobre a actividade de A. Sena e da Ether, em curso, seria oportuno iniciar diligências nesse sentido. Talvez fosse possível dialogar com António Sena e procurar classificar a Colecção como património de interesse nacional - é o único acervo existente que pode vir a constituir a base material de uma informação exaustiva e crítica sobre a história da fotografia em Portugal. Talvez seja necessário (e possível) adquirir a Colecção António Sena.
Tudo o que se deposita na Torre do Tombo e na Cadeia da Relação (em condições de investigação e acessibilidade muito fragmentárias, na sequência de políticas administrativas demasiado discutíveis) é apenas as margens dispersas dessa colecção, cujo acesso e valorização seria estruturante de uma nova abordagem cultivada das várias práticas fotográficas passadas e presentes. Para além dos seus critérios idiossincráticos e tantas vezes polémicos, a Colecção, pela importância, raridade e qualidade das provas de época reunidas, e a Biblioteca, devido à pobreza dos acervos públicos acessíveis, tal como a História de António Sena, que continua a ser única, são elementos insubstituíveis para que venha a ser possível consolidar alguma cultura fotográfica.


* A.S., depois de instalado na Ilha do Pico, foi durante alguns professor de Educação Visual e é actualmente agricultor nas Lages do Pico, dedicando-se à agricultura biológica integrada.
** A representação da fotografia portuguesa na Europália distribuiu-se pelos Museus de Fotografia de Charleroi e Antuérpia e foi parcialmente registada no catálogo Portugal 1890-1990. Tratou-se da 1º tentativa de uma visão retrospectiva, que ficou incompleta e não foi apresentada depois em Portugal, por não serem atribuídos os meios financeiros e logísticos necessários. A mostra integrou uma primeira panorâmica de obras realizadas por fotógrafos estrangeiros em Portugal, da responsabilidade de Jorge Calado, que veio a ser ampliada e exposta com o apoio da CGD ("Regards étrangers").
*** Uma formulação menos agreste diria que A.S. de retirou da esfera pública depois de mais de 20 anos de pesquisas, iniciadas por volta de 1973, e que tiveram a sua expressão final na publicação da sua História. É manifesto que todas as outras intervenções públicas (e oficiais) que alcançaram condições de maior patrocínio e visibilidade (diria também venalidade) se extinguiram (ou sobrevivem) sem consequências relevantes. Os anos 80 e 90 ficaram marcados pela acção da Ether, mesmo se por Coimbra passavam Duane Michals, Alvarez Bravo e Robert Frank.

versão revista em 31 de Dezembro.


1 comentário:

  1. Poderá representar uma perda insubstituível um profundo golpe na paupérrima área da historiografia da fotografia portuguesa, a que muito poucos se interessam, também defendendo um património único e já muito desbaratado.

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