quarta-feira, 7 de maio de 2014

1938, o Álbum comemorativo

outra síntese:
ÁLBUM COMEMORATIVO DA EXPOSIÇÃO-FEIRA ANGOLA 1938


Um fotolivro ignorado com fotografias de Firmino Marques da Costa e arquitecturas de Vasco Vieira da Costa

O álbum e a exposição esquecidos
Um feixe de temas: fotografia, arquitectura/design expositivo, política imperial e autonomismo (o governador António Lopes Mateus)
Firmino Marques da Costa (Ether 1987, a visita de Carmona)
Porto 1934 e Luanda 1938 (Benguela 1935 e Lisboa 1937 / 1940)
Vasco Vieira da Costa
O Plano de Fomento de 1936-38 
O autonomismo angolano (o novo Brasil, a posição pró-Angola)
O esquecimento (a II Guerra?)
A etnografia e arte indígena
Fotolivro



A Pequena Galeria expôs entre 27 de Março e 24 de Abril de 2014 um photobook esquecido: o ‘Álbum comemorativo da Exposição-Feira Angola 1938’, editado pelo Governo Geral da Colónia, talvez apenas para ofertas. Foi impresso em offset na Litografia Nacional, Porto, tal como o fora o ‘Álbum Fotográfico da 1ª Exposição Colonial Portuguesa’, de 1934, este com “clichés” de Alvão e de menor formato.
No Álbum de 1938 as fotografias (c. 140) são atribuídas a C. Duarte, que é muito provavelmente Firmino Marques da Costa (1911-1992). Acompanhou a visita de Carmona às colónias, em 1938, e a ele atribuiu António Sena a autoria principal das imagens dos cinco álbuns fotográficos que a Agência Geral das Colónias publicou em 1939-40. Estes álbuns, que tiveram edição provável de Luís de Montalvor e de José Osório de Oliveira (segundo A.S.),  foram objecto de uma exposição em 1987 na galeria Ether e estão agora acessíveis em http://memoria-africa.ua.pt/Library/VisitasPresidenciais.aspx. O segundo destes álbuns refere a intenção do Governo de Angola produzir um volume dedicado à Exposição-Feira, o que se cumpriu - algumas fotografias publicadas nessas edições são ‘contíguas’, mas não as mesmas: uma colecção de negativos teria seguido para a Agência Geral das Colónias e outra ficou em Luanda (é o que se pode depreender).

Se as fotografias são excelentes, e em muitos casos insólitas (ou às vezes fantasmáticas), também a própria concepção deste fotolivro ignorado justifica que seja considerado uma das melhores edições fotográficas portuguesas (ou angolana?) pela sua qualidade gráfica e pela muito eficaz sequenciação das imagens. Será possível atribuir a edição a Vasco Vieira da Costa, cuja presença se reconhece também no grafismo da revista ‘Actividade Económica de Angola’ onde as mesmas fotografias se publicam (‘Revista de Estudos Económicos Propaganda e Informação’ número dedicado à Exposição-Feira de Angola — Ano III. Números 9 a 12 - Março a Dezembro de 1938. Ed. da Repartição de Estudos Económicos, Governo Geral de Angola). 

Comparar o Álbum da Exposição Colonial de 1934 (Galvão/Alvão) e o da Exposição de Angola seria um exercício muito significativo: o africanismo de Galvão é esteticamente retrógrado, assente na exploração eurocêntrica da história e dos cenários colonialistas, incluindo o zoo humano; a exposição de Luanda é moderna e reivindicativa face a Lisboa. Dois mapas podem simbolizar as diferenças: um pretende que “Portugal não é um país pequeno” sobrepondo as colónias ao espaço europeu, o outro sublinha a centralidade de Angola no mapa do Império ou do mundo. 

Outro motivo de interesse da Exposição-Feira e do seu álbum é precisamente a intervenção do depois arquitecto angolano Vasco Vieira da Costa (1911-1982, nascido em Aveiro, naturalizado depois de 1974), enquanto Chefe da Secção Técnica da Exposição-Feira. Era então desenhador e funcionário aduaneiro (também “artista de elevado merecimento”) - foi ele o responsável principal pelo plano geral do certame, por muitos dos pavilhões e pelo design dos conteúdos expostos. O mérito da sua intervenção justificou a atribuição de uma bolsa para estudar arquitectura no Porto, em 1940. Estagiou no atelier de Corbusier em Paris de 1945 a 48 e a partir de 1950 foi autor de edifícios emblemáticos da arquitectura moderna em Luanda, como o já demolido Mercado de Kinaxixe (1950-52). Note-se, entretanto, que é o Banco de Angola de Vasco Regaleira (1953-56), um edifício revivalista de modelo joanino, que hoje se reconhece como o ex-libris de Luanda e mesmo de Angola.

Encontra-se no espaço da Exposição-Feira alguma da melhor arquitectura e decoração Art Déco nacional e o exercício surpreendente, e talvez tão naif como experimental, de um largo ecletismo de estilos, a que estará associado Vasco Vieira da Costa. Entretanto, foram identificados como autores de alguns pavilhões os arquitectos Fernando Batalha (Pavilhão Principal) e Vasco Regaleira (Pavilhão do Banco de Angola), mais um desconhecido João Eugénio de Morim (monumento a Portugal Colonizador, pavilhões oficiais de Benguela e Bar-Dancing). Esta identificação vem publicada apenas na revista mencionada, com a omissão de Regaleira, arq. da Metrópole.

Outros temas devem ser considerados em torno deste Álbum e da Exposição-Feira, em especial o complexo contexto político-económico angolano após o Acto Colonial de 1930 e perante a sucessão de medidas administrativas centralizadoras que caracterizaram a política imperial da década. 
Entre as repetidas revoltas dos colonos, ou planos de revoltas e vagas de repressão, de 1936/37 e 1941, o mandato também esquecido do governador coronel António Lopes Mateus (1935-39) ficou marcado pela aprovação do Plano de Fomento de 1938 (proposto pelo seu governo em 1936), o projecto do Liceu Salvador Correia e, quanto ao que aqui importa, a realização por sua iniciativa da Exposição-Feira, programada como “um documentário expressivo e completo do desenvolvimento económico de toda a Colónia” e seguindo uma “orientação vincadamente utilitária e prática, procurando mostrar Angola tal como ela é”. Ou seja, sem o carácter historicista e apologético de outras exposições coloniais do tempo. 
É manifesto que os objectivos, o programa e os conteúdos, bem como a concepção arquitectónica e cenográfica são independentes da lógica das exposições de Henrique Galvão e de António Ferro, por sua vez também divergentes entre si. Galvão fizera em 1932 uma feira de amostras em Luanda, a que se seguiu a direcção da Exposição Colonial de 1934 e a Secção Colonial da Exposição do Mundo Português. Mas o exemplo para o certame de 1938, como se afirma na Portaria da sua criação, é a Exposição Provincial de Benguela de 1935 que recordava a fundação de Huambo/Nova Lisboa por Norton de Matos e a determinação reivindicativa do colonos do Planalto

O certame foi totalmente levada a cabo por técnicos e artistas de Angola, o que é sublinhado em muitas circunstâncias. Foi inaugurado por ocasião da visita de Carmona a 15 de Agosto (dia da Restauração de Angola, após a ocupação holandesa) e decorreu até 18 de Setembro, precedida pelo anúncio da criação do Fundo de Fomento de Angola com um empréstimo de 115 milhões de escudos. É possível que o início da II Guerra tenha alterado profundamente as expectativas então abertas, levando ao esquecimento da Exposição. Dois anos depois realizou-se a Exposição do Mundo Português.

O interesse pela Etnografia e a arte indígena, editorialmente iniciado em Angola pelo eng. Fernando Mouta (autor do álbum fotográfico ‘Etnografia Angolana’ publicado para a 1ª Exposição Colonial de 1934) e por Carlos Estermann, fica também afirmado nos pavilhões mostrados no álbum, entre outros tópicos a explorar. Elmano Cunha e Costa fotografou também na Exposição e José Redinha, que já estava a organizar o Museu Etnográfico da Companhia de Diamantes, veio do Dundo para a ocasião. A criação de um museu de arte índigena em Luanda tinha sido reclamada a propósito da Exposição (ver Diário de Luanda, 12 de Dez. 1937) e, de facto, o Museu de Angola, hoje Museu de História Natural foi fundado em 8 de Setembro de 1938.

A Exposição-Feira e o governador António Lopes Mateus não são referidos na bibliografia essencial sobre as últimas décadas da história colonial de Angola: nem em Francisco Bettencourt, “A memória da Expansão”, e Yves Léonard, “O Império Colonial Salazarista”, na ‘História da Expansão Portuguesa’, 1998-9, vol. 5; nem em Fernando Tavares Pimenta, no estudo pioneiro ‘Angola, os Brancos e a Independência’, Afrontamento, 2008. Mas o arq. José Manuel Fernandes referiu-se-lhe pela primeira vez no capítulo “Arquitectura e Urbanismo no Espaço Ultramarino Português” publicado naquela mesma história, e também em ‘Geração Africana, Arquitectura e Cidades em Angola e Moçambique, 1925-1975’, Horizonte, 2002. O Boletim Geral das Colónias, nº 162, Dez. 1938, dedicou numerosas páginas à Exposição (ver em Memória de África) e ela também foi fotografada em ‘O Mundo Português’, no nº 60, de Dezembro, certamente pelo mesmo fotógrafo mas de um modo radicalmente diferente: sem conteúdos expositivos e através de vistas gerais ou aéreas onde aparece como um lugar árido e desmesurado. 

1938 é um ano significativo no campo da fotografia: o 2º Salão (que é fotografado por Mário Novais) é criticado nas páginas da revista ‘Objectiva’, que se propõe organizar um concurso concorrente. A revista, dinamizada pelos drs. António Lacerda Lopes e Álvaro Colaço, faz então a defesa do “Flagrante” contra as processos da fotografia artistica, propõe o quotidiano e o banal como temas, numa dinâmica que reflecte a crescente utilização dos pequenos formatos acessíveis aos amadores. San Payo apoia os reformadores e João Martins condena-os; o Pe Moreira das Neves põe termo   à energia dos amadores estabelecendo a lista dos temas nacionalistas a fotografar para 1940.
A edição de ‘Images du Portugal’ (SPN) estabelece a aliança entre os fotógrafos da ‘Objectiva’ e os clássicos modernos Mário e Horácio Novais, entre outros, com a participação também de Firmino Marques da Costa e uma imagem da viagem de Carmona às colónias (não se identificam autores). Mas com a celebração dos centenários nacionalistas e a carência de meios dos anos de guerra a fotografia parece regressar aos processos da fotomontagem e da propaganda, exemplificados no álbum Portugal 1940, enquanto os álbuns da Viagem Presidencial e da Exposição-Feira tinham manifestado outra frescura e outro fôlego.  


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